A peregrinação a Santiago de Compostela é daquelas
raras experiências humanas capazes de despertar atenção e respeito
imediatos, em qualquer roda de conversa. basta dizer "eu fiz o
caminho" e todos os olhares se voltarão para você, clamando por
detalhes sobre o que mudou em sua vida depois disso ou quais foram os
momentos de maior desconforto na travessia.
O peregrino que vai a essa cidade espanhola pode até voltar à sua
mesmíssima rotina depois de render homenagens ao apóstolo Tiago, primo de jesus,
cujos restos mortais repousam na catedral local. não importa. desde que ele tenha
cumprido ao menos os 100 quilômetros finais a pé, ou os últimos 200 a
cavalo ou de bicicleta, como manda a tradição, merecerá nossa
reverência. e terá assunto para o resto da vida.
Saímos de Madri sob um frio rondando o zero grau, e
seguimos direto para a pequena Santo Domingo de la Calzada, 320 quilômetros
ao norte, na província de La Rioja. como tantas outras ao longo do caminho
de Santiago, Santo Domingo é uma cidadezinha com construções impressionantemente
monumentais. uma delas é o antigo hospital do século XII, que dava
abrigo aos peregrinos - naquela época, o conceito de hospital e hotel
era praticamente um só, dado o desgaste físico sofrido pelos viajantes,
hoje transformado num charmoso parador. O
Os paradores espanhóis são hotéis confortáveis instalados em prédios
históricos cuidadosamente preservados. há cerca de uma centena deles em todo o país, sendo que
santo domingo acaba de inaugurar mais um, num convento do século 16.
qualquer dos paradores locais dará ao peregrino a sensação legítima
de estar seguindo os passos de tiago, mas sem precisar padecer na fila
do banheiro de um albergue.
Revelar um pouco dos muitos atrativos que existem ao
longo do caminho mais trilhado até Santiago, aquele que corta o norte da
Espanha de leste a oeste. nosso objetivo era apenas o de mostrar como essa
região é rica em atrações e pode amparar os peregrinos com hotéis e
restaurantes de primeira linha. até porque os romeiros de hoje não precisam mais ficar em alojamentos
coletivos nem dormir ao relento, como faziam séculos atrás. podem
obter a remissão dos pecados sem se submeter ao purgatório o tempo
todo.
Em Santo Domingo de la Calzada, você também ouvirá
o relato de um dos milagres atribuídos ao apóstolo, ao deparar com a
única igreja do mundo que mantém um galinheiro num altar.
Diz a lenda que, graças à intercessão de são tiago, um peregrino injustamente
acusado de ladrão teria sobrevivido a um enforcamento, para espanto
geral. impressionado, o juiz teria dito que suspenderia a sentença se
um galo que já havia ido à panela revivesse e cantasse. pois o galo
cantou e, desde então, a catedral local reservou um lugar de honra para
os galináceos. acredite ou não nessa história, não deixe de visitar
essa igreja única.
Como o caminho de santiago também é percorrido
regularmente por críticos astronômicos, recorremos a eles para
escolher o primeiro restaurante do nosso roteiro. a aposta natural foi o
echaurren, na ainda mais diminuta cidade de ezcaray, distinguido com uma
estrela pelo guia michelin. é uma casa tradicional, de 1898, que há
quatro anos passou a oferecer também uma cozinha de autor, comandada
pelo jovem chef francis paniego. aluno de dois dos maiores ícones da
culinária espanhola, o catalão ferran adrià e o basco juan mari arzak,
paniego esteve outro dia mesmo em são paulo, trocando figurinhas com o
chef alex atala. no seu menu-degustação de oito pratos, há
delicadezas como orelhas de porco afogadas num molho de tomate e
temperos, servidas em taça como um coquetel, e tacos de foie gras com
geléia de vinho e maracujá. Um banquete que sai por 60 euros, sem
contar o vinho - que o sommelier josé felix indicará com precisão,
levando em conta não só a comida, mas também seu estado de espírito
e seu bolso. só posso adiantar que será um tempranillo local, já que
estamos em la rioja, a região das melhores vinícolas da espanha.
Ezcaray também é famosa pelas mantas de frio,
tecidas em várias combinações de lã, cashmere, alpaca e mohair. são
um ótimo reforço contra o inverno europeu, além de boa sugestão de
presente. quanto mais finas e quentes, mais caras elas são.
De lá, fizemos um trajeto tortuoso para combinar a
visita a uma bodega de vinhos em nájera, o jantar em Logroño e o
pernoite em Santo Domingo. Logroño, capital de La Rioja, é uma cidade
próspera e animada, repleta de lojas sofisticadas e grandes
restaurantes. Num deles, La Galeria, caí na tentação de provar uma
substanciosa especialidade regional, a bochecha de boi.
Claro que não é fácil resistir às delícias do
caminho de santiago, especialmente quando se tem mesa reservada para
almoço na casa Ojeda, em Burgos, famosa pelo lechón, o cordeiro de
leite assado em forno a lenha. antes disso, faríamos um pequeno desvio
até a minúscula briones para conhecer um museu do vinho inaugurado há
apenas um ano e meio, mas já reconhecido como o mais importante do
gênero no mundo.
O museu reúne o acervo de um grande produtor local,
pedro vivanco, que inclui, entre outras raridades, prensas seculares de
madeira, vasilhas de cerâmica usadas há mais de 3000 anos a.c. e uma
preciosa coleção de arte relacionada com o vinho (da qual fazem parte
gravuras de Pablo Picasso).
O passeio pelas salas dedicadas a cada etapa
do processo de vinificação, com muita informação audiovisual,
desemboca na adega da vinícola vivanco e termina, claro, com uma
degustação da bebida. há ainda uma loja para os amantes do vinho, um
restaurante renomado (tocado por outros discípulos de adrián e arzak)
e, ao redor do museu, vinhedos com mais de 200 espécies de uvas
viníferas do mundo todo. enfim, um programa que podia tomar o dia
inteiro, mas que fizemos em apenas duas horas, para não atrasar a
viagem.
o restaurante Ojeda, aberto em 1912, é outro ponto
de parada que faz parte dos sonhos de qualquer peregrino. serve um
cordeiro temperado apenas com salmoura, para realçar o sabor da carne,
que chega à mesa desmanchando de tão macia. convenci o maître
salvador martínez a nos preparar pequenas amostras do que tinha de mais
especial - e foi difícil, penoso até, não se empanturrar com tanta
coisa boa. ele trouxe finas fatias de língua de boi, marinadas com
vinagrete de cabernet sauvignon, e algumas rodelas do delicioso
chouriço local, que adiciona arroz ao recheio tradicional de sangue de
porco e toucinho. depois, uma salada de perdiz escabechada e desossada.
por fim, o lechón magnífico, que dá fama à casa. um festival para
ficar na memória de qualquer um - como certamente ficou na do príncipe
felipe, herdeiro do trono espanhol, que esteve no restaurante alguns
anos atrás.
Terra de el cid, herói medieval na luta contra os
mouros, burgos é uma das principais cidades da província de castela e
leão. sua maior atração é a esplêndida catedral gótica, que é a
terceira da espanha em tamanho, declarada patrimônio da humanidade pela
unesco. um dos hotéis locais mais interessantes é nh palacio de la
merced, num palácio do século 16 que conserva a fachada original.
Um restaurante de cardápio original é o la fabula,
que nesse dia oferecia também um cardápio especial à base de cogumelos
silvestres, eles são colhidos nessa região no final de outono.
Eram nada menos que dez pratos, das entradas à sobremesa, que levavam esse
ingrediente, provei alguns, só o suficiente para perceber como esse fungo
pode ser tão variado em sabor e textura. quase todos deliciosos, cada
um à sua maneira.
Entre os pontos de parada obrigatória no caminho de
Santiago está o vilarejo de Villalcazar de Sirga, onde os peregrinos
costumam bater em duas portas: a da igreja local e a do restaurante
Mesón de Villasirga. A da igreja nem sempre está aberta, como
acontecia naquela manhã gelada de sexta-feira em que caía uma neve
fina. já a do restaurante abre todo dia para o almoço e conversávamos
animadamente com o dono, Juan Pinto, quando um cliente entrou e se
instalou logo na primeira mesa que viu, era Jean, um
francês de 43 anos, o primeiro peregrino de verdade que
encontrávamos no caminho. Esperei que Juan lhe servisse a sopa
castellana, feita com miolo de pão e presunto ibérico, para me
aproximar. Jean é um técnico de informática que está cumprindo o
que prometeu a si mesmo já há alguns anos. Mas por que fazer a
peregrinação nessa época tão fria? "era o tempo que eu tinha e
não queria esperar mais", explicou. desde a partida, de St.
Jean-Pied-De-Port, na França, David estava na estrada havia quase um
mês - e calculava levar outro tanto para chegar a Santiago.
Estava ali para se alimentar e descansar um pouco,
mas também para pegar o carimbo que atestava o cumprimento de mais uma
etapa na longa caminhada. é a coleção desses carimbos que dá direito ao
diploma de peregrino, no final. aproveitamos a deixa e pedimos para
javier carimbar também nossos passaportes, como lembrança.
De Villalcazar de Sirga seguimos para León pela
auto-estrada, já que a neve ameaçava engrossar. a partir daquele
momento, teríamos de ficar atentos aos boletins meteorológicos para
saber da necessidade de colocar correntes nas rodas do carro ou até
mesmo adiar a viagem em virtude de possível interdição das rodovias.
mas correu tudo bem e chegamos ao parador São Marcos, de León, no
final da tarde. assim como o de santiago de compostela, este é um dos
paradores mais elegantes de toda a rede - e ambos também serviram,
durante séculos, como hospital/hospedaria para os peregrinos. O jantar
foi no Vivaldi, outro restaurante destacado pelo guia michelin, cujo
prato mais famoso é um mexido de camarões graúdos com grão-de-bico.
achei mais interessante a salada de toro - um saboroso corte da barriga
do atum, com cogumelos, acompanhada de um vinho branco Albariño,
especialidade da Galícia, a província de Santiago.
Estávamos saindo de León quando um peregrino a
cavalo, algo cada vez mais raro no caminho de santiago, chamou nossa
atenção. Duas quadras adiante, paramos o carro e voltamos para
conversar com ele - e, então, descobrimos que na verdade se tratava de
uma amazona austríaca que saíra há exatos 40 dias dos arredores de Viena
para cumprir seu desafio. "se a neve deixar, chegarei a santiago em
uma semana", comentou. Desejei-lhe boa sorte e segui meu caminho,
imaginando o que poderia tê-la levado a uma aventura desse quilate, sozinha.
Nosso primeiro compromisso do dia era em Castrillo de los Polvazares, um
curioso povoado de pedra onde se prepara o mais autêntico cocido
maragato, feito com oito tipos de lingüiça e carnes cozidas (inclusive
orelha e pé de porco), acompanhado de repolho refogado.
O cocido maragato é saboroso e pesado como a nossa
feijoada. de quebra, ainda inclui uma sopa é uma refeição tão saborosa
e calórica quanto a nossa feijoada - com a diferença de que ainda inclui,
de quebra, o caldo resultante do cozimento, acrescido de macarrão fininho.
provamos o cocido no maior restaurante do vilarejo, o cuca la vaina, onde ele
pode ser combinado com vinhos de boa cepa, de la rioja ou de ribera del
duero. depois, fomos visitar o restaurante de dona maruja botas, o
primeiro a colocar castrillo no mapa gastronômico da espanha, mas que
até hoje mantém a simplicidade dos velhos tempos. Dona Maruja serve o
cocido para grupos de até trinta pessoas, no máximo, e só sob
reserva. não se interessa por novos clientes e se recusa a sofisticar o
serviço. há mais de trinta anos oferece a mesma comida, em velhas
travessas, com um modesto vinho da casa já incluído no preço, e
bem que poderia, já que o almoço ali sempre termina em clima de festa,
animada pelo violonista aleluia e por ela própria, uma hábil tocadora
de castanholas.
Estava preparado para nem ser recebido em seu
restaurante - afinal, não tinha reservado lugar. Mas Dona Maruja gostou
de saber que eu era brasileiro e fez questão de me convidar para um
café e para a cantoria pós-almoço. contou que muitos brasileiros têm
vindo a seu restaurante nos últimos anos.
Quase ninguém mais faz o roteiro a cavalo. quase
a beleza feita de erosão a hospitalidade de dona maruja acabou nos atrasando
para a visita às médulas, as intrigantes colinas rubras e pontudas que
ficam nos arredores de villafranca del bierzo.
as médulas foram lapidadas por um complexo sistema de canais e eclusas
construído pelos romanos, 2000 anos atrás, para explorar o ouro. são também,
provavelmente, as únicas áreas erodidas que resultaram numa paisagem
bonita, no mundo todo. mas perdemos a visita - que prometia ser mais
especial ao pôr-do-sol, quando as encostas ganham vários tons de
vermelho - e fomos direto ao palacio de canedo, uma pousada rural de
estilo medieval, toda de pedra, para o último pernoite antes de
santiago.
Chegamos a santiago no final da manhã de um domingo
morto, debaixo de chuva. um péssimo dia para fazer fotos, mas perfeito
para relaxar num spa, após cinco dias intensos de viagem. depois de uma
refeição leve no sino, um simpático restaurante de comida
contemporânea (menu de três pratos, a 14 euros), ganhamos a estrada de
novo até sanxenxo, já no litoral da galícia, onde fica o spa isla de
la toja, um dos mais equipados da província. mas nosso interesse não
estava no variado cardápio de tratamentos do spa, e sim em sua
localização privilegiada, de frente para o mar, na região de rias
baixas. vista da piscina, através de uma imensa parede de vidro, era
uma paisagem estimulante mesmo quando riscada vez ou outra por um raio.
De volta a Santiago, passamos no parador dos reis
católicos, o antigo ponto final de todos os peregrinos, para jantar em
um de seus restaurantes. escolhemos o mais informal deles, o enxebre,
para uma degustação de três petiscos regionais: presunto de lombo de
porco, cogumelos grelhados e um delicioso marisco à provençal, a
navalla, que tem esse nome devido ao formato longilíneo. o parador, que
forma um ângulo reto com a fachada da catedral de santiago, na praça
principal da cidade, hoje é um hotel suntuoso acostumado a receber
celebridades e chefes de estado. é em sua suíte real - que inclui uma
sala de estar e um segundo quarto, anexo - em que o rei juan carlos
costuma ficar, quando vem à região. perón, fidel castro e o
ex-presidente francês giscard d'estaign foram outros hóspedes ilustres
que deixaram registro no livro de ouro do hotel.
Em sua adaptação aos novos tempos, o parador dos
reis católicos transformou sua capela - onde os peregrinos assistiam à
missa que celebrava o final da jornada - num sofisticado salão para
jantares e recepções. já o mezanino, ao lado da capela, antes usado
para acomodar os peregrinos mais fragilizados que não mais podiam
assistir à missa em pé - e por isso era conhecido como observatorio
dos agonizados -, hoje é usado para reuniões de altas autoridades. o
primeiro-ministro josé luis zapatero já o requisitou várias vezes
como gabinete de trabalho.
A missa na catedral de santiago marca o fim da
jornada.. e hora, entao, de partir para as lembrancinhas por fim, a catedral.
quem chegou até aqui deve fazer o circuito completo, e isso inclui uma prece
(ou uma reverência) diante do túmulo de São Tiago, a presença na missa do
peregrino, ao meio-dia depois da qual há a cerimônia do botafumeiro, (o gigantesco
incensário que descreve um largo movimento pendular), e um passeio
pelos telhados de pedra da catedral. inclui também tocar com a testa a
escultura dos santos dos croques, na entrada da igreja (reza a lenda que
isso garante sorte e sabedoria), e abraçar a estátua de São Tiago, no
altar-mor. fiz tudo isso direitinho, deixando de lado apenas uma última
tradição dos peregrinos: seguir até o cabo de finisterre, onde as
águas do atlântico costumam ser bastante agitadas, para queimar, ao
pôr-do-sol, as roupas usadas na caminhada.
Para os peregrinos, chegar ao final de cada etapa é motivo para comemorar
e se emocionar.
Para os viajantes, digamos, normais, cada parada é uma oportunidade para
ouvir a história tocante de algum fiel de São Tiago. É emocionante ver
tanta gente se emocionando.
É outra especialidade da região, acostumada a
receber levas de visitantes desde o século IX. todos estão dispostos a
orientar os forasteiros. os antigos hospitais de peregrinos viraram
charmosos paradores e até hoje há albergues onde se dorme de graça ou
pagando pouco as igrejas e os antigos alojamentos de peregrinos
são o destaque. burgos tem uma magnífica catedral gótica, e santiago
de compostela, a mais monumental. os paradores de León e Santiago são
preciosidades.
O suculento cocido maragato, o tenro cordeiro de
leite, os mariscos da galícia, as criativas receitas dos discípulos de
ferran adrià e juan mari arzak, as tapas que animam as tabernas, o
vinho de la rioja e de ribera del duero... o que não falta é boa
comida e bebida. o efeito colateral indesejado é que costuma engordar.
Um lugar onde muita gente se sente à vontade para
dormir ao relento só pode ser seguro. mas, em albergue coletivo, guarde
documentos e dinheiro numa pochete de tecido dentro da roupa.
A maior parte dos peregrinos faz o caminho a pé, em
etapas de 20 a 25 quilômetros por dia. quem opta pela bicicleta tem a
vantagem de percorrer o dobro da distância com menor desgaste físico.
A travessia a cavalo, embora prazerosa para muitos, é cada vez mais
rara, pelos cuidados que o animal exige e pela dificuldade de
transportá-lo de avião. Já o ideal para quem quiser explorar a região
sem compromisso com a peregrinação é alugar um carro, que pode ser retirado
no aeroporto de Madri ou de Pamplona e devolvido em Santiago.
É mais agradável viajar pelo caminho de santiago na
primavera ou no outono europeus, quando o clima é ameno e a paisagem,
mais bonita. evite julho e agosto, quando faz muito calor e a estradas e
hotéis costumam ficar lotados. já de meados de novembro a início de
março é o frio que espanta os peregrinos.