Buenos Aires muy exquisita. Exquisito em espanhol quer
dizer delicioso. E deliciosos são mesmo estes endereços diferentes da
capital argentina. A casa Raab, onde o relojoeiro artesão Francisco Miguel
Raab, 76 anos e 65 de profissão, dedica-se desde a década de 40 a consertar
relógios de bolso, de parede e de pulso. É o lugar certo para você dar um
jeito naquela preciosa peça elisabetana que pertenceu a sua bisavó. Engrenagens
minúsculas, guardadas em incontáveis gavetas, aguardam a vez de ser usadas por
esse profissional minucioso.
Mas não adianta levar seu relógio colorido da hora, comprado na última liquidação.
Para Raab, nada de bom, foi produzido nessa área depois de 1950. De tempos
em tempos, ele ainda constrói réplicas de aparelhos históricos como Relógios
de azeite, de fogo e de água. E até monta exposições.
Tudo com o apoio de sua inseparável companheira, dona Mela,que também mata
o tempo lembrando os bons tempos.
Concede-me esta dança, señorita? Sim, o tango está vivo
e passa muito bem, gracias. Mas você não irá encontrá-lo com esse viço em
um daqueles espetáculos anunciados em folhetos de hotéis.
Quem quiser experimentar o tango genuíno e, sobretudo,
bailá-lo, ao lado de dançarinos não-profissionais, deve rumar para longe
do caminito, em busca de casas noturnas chamadas milongas.
Qual a melhor milonga? A La Viruta está no páreo.
Não há espetáculos de exibição, nem luxo. O lugar é simples, uma área
aberta cercada de mesinhas. A La Viruta tornou-se a milonga que atrai
mais jovens. Além do ritmo básico, o dj toca milonga (uma variação mais rápida)
e valsecito cruzado (o tango em tempo de valsa).
Nos intervalos, rola um pouco de rock, é a deixa para os casais trocarem de par.
Segundo recomenda a etiqueta, é o homem quem deve convidar a dama.
Às vezes, só com um aceno de cabeça, quem ficar constrangido em chegar
sozinho a la viruta pode recorrer à ABC Tango Producciones, que oferece
aulas para estrangeiros e os leva para dançar em lugares do gênero.
Museu Evita, a Argentina ainda chora por Evita, dizem
que quando María Eva Duarte de Perón morreu, aos 33 anos, enquanto as
multidões de descamisados choravam, muita gente brindava com champanhe.
Ninguém lhe era indiferente. A primeira-dama mais famosa abaixo do equador
foi amada e odiada; mitificada e, claro, imortalizada em filmes.
A vida dessa personagem inesquecível é revelada no museu Evita,
Foi aberto quando se completaram cinqüenta anos de sua morte. A exposição
mostra a infância do mito, a carreira de atriz, os trajes de altíssima costura,
o encontro com Juan Domingo Perón e as campanhas em prol das mulheres e
dos pobres. A casa em que fica o museu é a única que restou das três pensões
temporárias, criadas por Evita, para mães que vinham do interior, sozinhas
ou com filhos. Aqui, é possível entender um pouco mais a paixão que a primeira-dama
despertava e que, ainda hoje, leva muitos a depositar flores em seu
modesto túmulo no cemitério da recoleta.
O hotel Marriott Plaza Hotel, inaugurado no início do
século passado, foi o primeiro de luxo de Buenos Aires, é necessário fazer
uma reverência para entrar na adega, ou você poderá ganhar uma dor de
cabeça, no sentido literal. Isso porque, para chegar a ela, é preciso
se curvar por alguns instantes para passar por uma portinha instalada no
fundo do bar e, depois, descer por degraus estreitos. Uma segunda porta,
de carvalho, o levará ao tesouro: um ambiente de 1909, coberto de
poeira com cheiro de tempo.
É onde estão guardados 230 tipos de bebida, muitas delas de safras de
várias décadas. Uma vez por mês, trinta pessoas se reúnem aqui para
degustações de vinho.
Que tal saborear sudores de una niña virgen? ou um
frenetico vaivén? não, não é um convite para a orgia. mas dá para
apostar um prato de pecado carnal como o seu pensamento voou longe,
certo? essa é a proposta bem-humorada do restaurante
romântico-erótico Te Mataré Ramirez, segundo a qual a imaginação,
estimulada por sabores, aromas e ambiente, é o melhor dos
afrodisíacos. os pratos, mediterrâneos, são listados em um belo
cardápio, que traz ilustrações e contos eróticos. a casa promove
shows de jazz e peças teatrais (nada é explícito, veja bem). o nome
do lugar vem de um lendário ramirez, amigo do dono, que seria um
equivalente ao nosso "ricardão": era um afortunado sedutor,
que acabou perseguido por maridos ciumentos e mulheres despeitadas. em
tempo: os pratos mencionados são massas caseiras com camarões, flan de
laranja e menta e medalhões de lombo com molho de azeitonas pretas.
"Que tal uma musiquinha?" ou "Que tal
um cafezinho"? Você não entedeu? É que no café Notorious, quem entra
aqui quer ouvir música. O cárdapio é musical. As mesas têm telas de computador de
cristal líquido, cada uma com fones de ouvido para duas pessoas.
Enquanto beberica e belisca alguma coisa, o freqüentador, com o toque
dos dedos, escolhe uma entre as mais de 30.000 faixas musicais que
quiser ouvir, pelo nome do músico, do álbum ou do gênero. A seleção
vai desde o útilmo lançamento de Rita Lee a trilhas sonoras de filmes,
passando por jazz, blues e álbuns de artistas argentinos.Na hora de mudar
a música, a troca é imediata. Há cd's à venda na parte da frente do café e,
no fundo, um salão onde rolam shows de jazz e bossa nova.
Um lugar diferente, quer apostar ? Jogue os dados e
aposte uma cerveja no Acabar, o bar onde, ao redor da bebida e da comida,
de lápis, papéis e tabuleiros, reúnem-se jogadores boêmios, em turmas de
amigos e até para uma despedida de solteiro.
O programa nesse botequim chique é se divertir com brincadeiras clássicas,
algumas remodeladas, que já fizeram parte de muitas infâncias.
são mais de cinqüenta tipos de desafio à disposição. Tem desde o sóbrio
xadrez até um kit para brincar de stop, mas entre os preferidos dos
freqüentadores está o sexonario: cada cor das casas do tabuleiro
corresponde a uma palavra ligada a sexo, que deve ser desenhada no papel
para que o outro adivinhe o que é. A decoração lúdica ajuda na
animação. o prédio foi uma fábrica de brinquedos que pegou fogo. das
cinzas e das sobras surgiram a idéia do bar. antigos moldes usados para
fazer carrinhos e bonecas estão pendurados na parede, como parte da
decoração. como o lugar é grande (cabem 420 pessoas sentadas), é
espaçoso o suficiente para oferecer diferentes ambientes, com
confortáveis sofás e balcões. até o cardápio vem em forma de
cartões, solto, como cartas a ser embaralhadas.
Um passeio pelo coração de Buenos Aires, rua Florida,
o calçadão, é uma das primeiras ruas para pedestres das Américas,
e é caminhando por aqui - no coração do Centro - que você pode começar a
conhecer Buenos Aires. Comece pela Galeria Güemes, um prédio de 1915,
em cujo topo havia um farol que servia de referência aos navios que
chegavam pelo Rio da Prata. No subsolo fica o recém-inaugurado Piazzolla Tango.
Siga olhando as vitrines da Florida e entre na livraria El Ateneo, a mais
tradicional da cidade. Nas vitrinas, livros de Paulo Coelho e também as obras
completas de Freud. Na esquina seguinte, vire à esquerda na Avenida Corrientes.
É a rua dos teatros. Na terceira transversal, a Suipacha, dê uma entradinha
à esquerda. No número 384 fica a Confeitaria Ideal, reduto de tango desde
1918, com lustres, vitrais e espelhos importados da Europa.
Ela já foi cenário de vários filmes, entre os
quais Evita. Volte à Corrientes e dê a volta no Obelisco, o
cartão-postal da cidade, na esquina da Av. 9 de Julio, considerada a
mais larga do mundo. Siga à direita até o Teatro Colón, e aproveite
para comprar entrada para um espetáculo à noite. Volte pela Av. 9 de
Julio e entre à direita na Lavalle, o calçadão dos cinemas e de
vários restaurantes populares, como a churrascaria La Estancia e o
Palácio das Papas Fritas. Quando chegar na Florida, desvie à direita
até o número 466 para conhecer a confeitaria Richmond, no mesmo lugar
há oitenta anos. Volte pela Florida vendo as vitrines e entre nas
Galerias Pacífico, um shopping center com boas lojas, bares e
restaurantes, que toma todo o quarteirão. Projetada em 1889 como
galeria comercial acabou virando escritório da estrada de ferro. Depois
de vários anos de abandono, foi totalmente recuperada.
De volta à Florida, dê uma entrada nas antigas lojas
Harrods, de 1918, que estavam fechadas há anos e até janeiro abrigam uma
mostra de moda argentina.
Quem gosta de literatura não pode deixar de entrar na Galeria del Este,
na quadra seguinte, à esquerda. Era aqui, no Café de las Artes, que o
escritor Jorge Luis Borges, já cego, costumava ditar seus versos. Ele
morava em frente, na Maipú 994, 6º andar. A esta altura, você já
estará no final da Florida, onde há várias lojas de artigos típicos,
como a Sobek, especializada em botas e bolsas de couro de carpincho, um
primo mais crescido de nossa capivara. Mais uns passos e chegará à
ampla Plaza San Martín. Em volta da praça estão o Circulo Militar -
de 1902, cópia do Palácio do Louvre, de Paris - e o aristocrático
Marriott Plaza Hotel, de 1909. Descendo pela rua M. T. de Alvear, siga
até a esquina com a Reconquista, até o pub irlandês Kilkeney, um dos
pontos da moda. É um bom lugar para uma cerveja.
A Avenida de Mayo é o corredor do poder na
Argentina, ligando o palácio presidencial à sede do Congresso. Comece
seu passeio pela Casa Rosada, a sede do governo. Nos fundos há um museu
com objetos de vários presidentes, entre os quais um enorme retrato a
óleo do casal Evita e Juan Perón. Em frente abre-se a Plaza de Mayo,
há três séculos lugar das grandes manifestações políticas. À
direita da praça está a Catedral Metropolitana, com altares e imagens
do século 18 e o túmulo do general San Martín, o líder da
independência. Entre na Avenida de Mayo pela calçada da esquerda, onde
está o Cabildo, construção de 1725, sede do poder nos tempos
coloniais. Vale visitar seu museu. Atravesse em direção à Casa de
Cultura. Uma volta pelo saguão dá idéia da riqueza da imprensa
argentina no início do século 20: aqui ficava a sede do jornal La
Prensa. Mantenha-se neste lado da avenida e, na esquina, aproveite para
comer no London City, restaurante tradicional, que aparece na obra do
escritor Julio Cortázar. Mas deixe para tomar o café três quadras
adiante, no venerando Café Tortoni, ainda hoje lugar de intelectuais e
políticos.
A casa mantém-se exatamente como era em 1858, quando
foi aberta, com os espelhos, lustres e vitrais trazidos da França. A
nona mesa junto à parede direita era a preferida do poeta espanhol
Federico García Lorca, quando morou em Buenos Aires. E a 11a e estava
sempre reservada para Jorge Luis Borges. Siga adiante, atravesse a Av. 9
de Julio e veja, na outra calçada, o Hotel Castelar. Aqui, no
apartamento 704, morou Garcia Lorca. Siga em frente, mas dê pelo menos
uma espiada nas mesas de sinuca e xadrez de Los 36 Billares, fundado em
1882 e ainda em funcionamento. Não deixe de fazer uma parada também no
número 1317, onde funcionou o Hotel Majestic, hoje uma repartição
pública. Suba até o 5o andar, onde fica o Museu da Alfândega, mas nem
precisa entrar: circule pelo saguão e pelos corredores, e deslumbre-se
com as colunas de mármore, o chão ladrilhado e o vão livre das
escadarias do que foi o melhor hotel da cidade um século atrás. Em
frente fica outro edifício famoso, o Barolo, de 1922 - o maior
arranha-céu da época e com um farol no topo da torre. Seu saguão, em
reforma, também é monumental, com um pé-direito de mais de 10 metros.
Você já está chegando à Plaza del Congreso, com um exemplar da
estátua O Pensador, de Rodin. Depois de uma visita ao Congreso, entre
na estação do Subte, para voltar ao Centro, mas não pegue qualquer
trem: espere passar uma das composições de madeira, remanescentes da
época de fundação do metrô, em 1917. Desça na estação Peru. Ela
está preservada como era quando o metrô começou a rodar. Nas paredes,
tem até cartazes publicitários da época.
Na Recoleta fica a Buenos Aires mais rica - do
passado e do presente. O bairro foi formado a partir de 1871, pelas
famílias que deixaram o Centro, fugindo da epidemia de febre amarela.
Hoje, as milionárias mansões deram lugar e embaixadas, hotéis e lojas
de grife.
O ponto de partida é a Plaza Carlos Pellegrini, no
início da Avenida Alvear. Fica aqui a Embaixada da França, no antigo
Palacio Ortiz Basualdo. A Embaixada do Brasil está bem na frente, no
Palacio Pereda. Na outra esquina ergue-se o Palacio Unzué de Casares,
hoje sede do Jockey Club. Um desvio à direita leva ao chiquérrimo
Shopping Patio Bullrich. Voltando à Alvear, você verá a loja de Nina
Ricci , e em seguida a Embaixada do Vaticano - ao lado, os palácios
Duhau e o semi-abandonado, mas imponente, Hume. Em frente, fica a loja
de leilões Sotheby's e, na quadra seguinte, estão as lojas Emporio
Armani e Polo Ralph Lauren.
Na esquina com a Ayacucho, entre no aristocrático
Alvear Palace, o hotel das celebridades. Vale uma parada para um chá
das 5, que custa de 14 a 30 pesos. Na rua detrás, a Posadas, fica o
popular Sanjuanino, que serve as mais afamadas empanadas da cidade, por
1,50 peso. Antes de chegar ao calçadão da Recoleta, ainda tem a
Ermenegildo Zegna e a Hermès, onde a etiqueta de uma bolsa na vitrine
marca 9135 pesos - ou 3190 dólares. Entre à esquerda e você passará
por uma infinidade de bares e restaurantes. Mas vá primeiro até o
cemitério, onde fica o túmulo de Evita Perón. Ao lado fica a
Basílica del Pilar, igreja colonial de 1732. Logo em seguida, no antigo
convento (mais tarde hospício), há um Centro Cultural com exposições
de arte. Nas arcadas ao lado, você verá lojas e restaurantes e, mais
alguns passos adiante, o Design Center, um paraíso para quem curte
objetos de decoração.
É hora de uma parada para o café, na esquina
da Avenida Quintana - escolha entre os tradicionais La Biela e o Café
de La Paix. Retome a caminhada pela Avenida Libertador para curtir o
belo Museu de Belas Artes, com pintores argentinos e obras-primas
européias de várias épocas. Na rua detrás, dá para ver o incrível
monumento flor de aço , cujas pétalas abrem-se de dia e fecham à
noite. O trajeto pode terminar no Museu de Artes Decorativas e Oriental,
num palácio mobiliado como se os donos originais, a família Errázuriz,
ainda aqui vivesse. Se as pernas agüentarem, volte pela Av. Las Heras
até a Av. Callao, entre à direita e siga até a Av. Santa Fe, dominada
por lojas de roupas femininas de preços médios. Mas não perca a
oportunidade de visitar a filial da livraria El Ateneo instalada no
antigo Teatro Grand Splendid. As prateleiras de livros tomam conta da
platéia e dos camarotes, mas o palco virou um café. Dá para sentar e
se sentir no centro das atenções. Só faltam os aplausos.
Buenos Aires tem boa rede de ônibus e um metrô, o Subte,
com cinco linhas. Mas os táxis são tão baratos que sempre valem a pena.