Um inverno com muita neve sempre atrai muita gente.
Com preços convidativos, vai atrair muito mais.
Nos meses de julho em Bariloche, no norte da Patagônia
Argentina, todos são brindados pela sorte. No final de abril já chega a neve
no Cerro Catedral, a montanha de 2140 metros onde está fincada a estação
de esqui. Quer dizer, já dá para esfregar as mãos e preparar as
luvas. E não esqueça aquele impermeável forrado de lã.
Tal como a neve, com a equiparação do real ao peso
argentino. Na prática, as duas moedas valem agora o mesmo, com alguns
centavos de vantagem para los hermanos. Agora que os preços ficaram
acessíveis para nosso apertado bolso, eles esperam, que todos corramos
para San Carlos de Bariloche.
É preciso dar gracias aos economistas argentinos. Vá
se preparando para tirar as luvas e degustar um esplêndido bife de
chorizo, saído da grelha do Boliche de Alberto ou do Refugio del
Montañes. Se você persiste na picanha, fique informado: os restaurantes
de Bariloche, anfitriões solícitos, Basta pedir um qualita de quadril,
Para jantar? Bem, se estiver bastante frio - oportuno lembrar que a
temperatura chega a 8 graus negativos nas noites rigorosas -, vista
aquele impermeável e vá, todo pimpão e despreocupado, saborear uma
fondue no aconchegante La Marmite.
Bariloche fica a 1700 quilômetros de Buenos Aires e
à beira dos Andes, e se sabe que 75% da Patagônia são constituídos de estepes.
Ao sair do aeroporto, você deverá estranhar o panorama, que, à
primeira vista, em nada lembra uma estação de esqui. A estrada se
estende por uma área muito plana, tão carente de vegetação que
serviria de locação para algum velho filme de cinema. São as tais estepes.
À medida que vai se aproximando da cidade, no entanto, tudo muda - e você
descobre que Bariloche é bem mais que uma estação de esqui.
A princípio, despontam as montanhas imponentes - os
cerros -, em boa parte cobertas de neve eterna. Depois, rompem as
sucessivas florestas, onde, na primavera, as árvores ganham matizes que
avançam do vermelho ao ocre. Mas há um atributo adicional: os lagos.
São sete lagos, de um azul profundo. Eles se insinuam em torno dos cerros,
ora tomando conta da paisagem, ora cedendo a vez às montanhas. O centro
da cidade fica à margem do maior desses lagos, o Nahuel Huapi, um colosso
de 560 quilômetros quadrados e sete braços, tão vasto que dentro dele
caberiam três Buenos Aires. O melhor lugar para ver essa paisagem é o
alto do Cerro Campanario. Subindo-se pelo teleférico você terá a vista
que a revista National Geographic americana listou entre as
sete mais encantadoras do planeta. Só não esqueça aquele
impermeável.
É difícil acreditar que, um século atrás, os argentinos
desconheciam Bariloche. Aliás, esse nome nem existia. Tudo se resumia a
um punhado de forasteiros e a alguns indígenas, os vuriloche, ou "o
povo do outro lado da montanha", que, por milagre, conseguiram
sobreviver à sanguinária campanha empreendida pelo general Julio Roca na
segunda metade do século 19.
Em 1895, o comerciante Carlos Wirderhold montou uma
vendinha na região e passou a fazer encomendas aos fornecedores de
Buenos Aires. As remessas deveriam chegar em nome de "Don Carlos de
Vuriloche". A partir disto se originou o nome San Carlos de Bariloche.
Por fim, os vuriloche ficaram na saudade.
Muito mais do que ao obscuro Don Carlos, a cidade de
San Carlos de Bariloche deve seu florescimento a Bustillo, e ao irmão
dele, Exequiel. Ainda nos anos 30, Exequiel ousou transformar a área em
Parque Nacional, projeto que teve início numa mesa do Hotel Ritz, de Paris.
Pouco depois, seu irmão Alejandro começou a projetar e a tocar as
principais obras de Bariloche, tais como a Catedral, o próprio Centro
Cívico e, em especial, o Hotel Llao Llao.
Em pedra e madeira, ele desenhou o rosto da cidade. Há uma tendência atual
de diminuir a importância desse arquiteto que, tal como o ex-presidente argentino
Perón - financiador de suas obras nos anos 40 -, flertava com os ideais
hipernacionalistas e grandiloqüentes do fascismo. Mesmo esses
críticos, no entanto, reconhecem que Alejandro Bustillo tinha estilo.
E, ressalve-se em seu favor: embora beneficiado nas licitações, jamais
se envolveu diretamente com política.
Erguido em 1938 pelo governo federal - três anos depois de o
primeiro comboio de trens chegar de Buenos Aires o hotel Llao Llao é o ideal
para viver por dentro não só o estilo de Bustillo, mas a própria história de
Bariloche. No início, era um refúgio que as famílias de posse reservavam
para o verão. Raros aventureiros vinham à cidade no inverno e só os muito
atiradinhos ousavam esquiar no Cerro Catedral.
O Llao Llao estava vazio na primavera de seu segundo ano de vida quando
um incêndio de três horas reduziu-o a nada. Reinaugurado em 1940, foi
testemunha do auge da economia argentina e, depois, do fenômeno iniciado
nos anos 50, que transformaria o centro de veraneio em glamourosa
estação de inverno.
Os piores anos do hotel ocorreram nos idos em que o
país esteve sob o jugo do governo militar. A decadência foi tamanha que,
em 1978, simplesmente fechou as portas. Durante quinze anos foi mantido assim.
Parecia o fim, mas não era. Vendido à iniciativa privada em 1993, o
Llao Llao ressurgiu das cinzas pela segunda vez.
Hoje, agrega comodidades como spa, piscina aquecida,
clube de golfe e uma happy hour em que as mais finas bebidas são
gratuitas para os hóspedes. Nesse bar à beira da lareira, aliás, com
alguma sorte, você topará com um magnata famoso fechando negócio.
Hospedar-se no Llao Llao não sai barato.Ninguém precisa
ser economista para descobrir que a hospedagem em um cinco-estrelas é o
único gasto em Bariloche que não diminuiu com a mudança do câmbio.
Ou que, por outra, ainda que tenha decrescido, permanece doendo no orçamento
durante a alta temporada.
Mas você não precisa se hospedar no Llao Llao, há dúzias de opções mais em
conta, hotéis de bom nível com a vantagem complementar de ficar no
Centro ou próximo dele. Lembre-se: de uma ou de outra maneira, você
conhecerá o Llao Llao de perto. Bastará fazer o mais tradicional
passeio de San Carlos de Bariloche, o Circuito Chico, que segue a regra
atual do baixo custo.
Circuito Chico, ou, em bom português, Circuíto
Pequeno, é o trajeto de 60 quilômetros, docentro de Bariloche ao Hotel
Llao Llao, ida e volta. Este passeio pode ser feito também de taxi.
Sugestões? Subir ao Cerro Campanario. Outra alternativa é o Cerro Otto,
com vista menos panorâmica, mas dotado de um restaurante giratório.
Outra proposta é a Playa Bonita, que faz jus ao nome, ao contrário do
pub Caras, franchising da revista, mas que, bem diferente desta,
tornou-se um bar já célebre pela ausência de celebridades. A dica que
agradará a românticos e neoromânticos é tomar um chá completo, com pães e
bolos caseiros, no Meli Hué, originalmente uma fabriqueta de perfumes de
alfazema, de frente para o Lago Nahuel Huapi, este pelo menos é um pouco mais
barato.
Há também um Circuito Grande. Gasta-se todo um dia para
percorrer seus 280 quilômetros. A graça é esquadrinhar uma região menos
habitada, margeando lagos em que a paisagem permanece como na infância
de Nahuelito, o remoto monstro que alguns moradores teimam em ver no
Lago Nahuel Huapi. O Circuito Grande culmina numa visita à Villa Angostura,
diminuta estação de esqui com 5000 habitantes, que os mais velhos avaliam
ter o mesmo charme da Bariloche de quatro décadas atrás.
Nem todo mundo faz o Circuito Grande. Mas não há
quem saia de Bariloche sem ter ido ao Cerro Catedral. A estação de esqui,
aos pés da qual foi erguida uma vila em estilo suíço, é a maior do continente.
Merece uma visita. A montanha onde moram os condores tem 90 quilômetros de
pistas e chega a receber 2500 esquiadores em um único dia.
Você não esquia e nem quer? Não há problema. Já
deu para notar que, ao contrário de outras estações de esqui, Bariloche é,
de fato, muito mais que um enclave para esquiadores. Há muito o que fazer
no Centro, desde que se respeite o rigoroso horário da siesta, das 13h30
às 15h30, quando tudo fecha, à óbvia exceção dos restaurantes.
Um dos programas é passear nas ruas, Mitre e Moreno,
onde se concentra o comércio. Existem também os pubs Pilgrim e Wilkenny,
principais agitos no inverno. Ou então um cassino.
Bariloche é atraente em todas as estações. Mas
o ideal é no inverno. Mais do que mera estação de esqui, bariloche tem
atrativos para o ano todo. como suas deliciosas pousadas de frente para
os andes
Estações de esqui costumam fisgar o visitante pelas
boas condições que oferecem aos esportes de inverno. Bariloche vai
além. quem a conhece sabe que as diversões na neve podem até ser seu
melhor atrativo - mas são só o começo.
Há muitos outros motivos que fazem as pessoas deixar
bariloche já com vontade de voltar. Experimentar um novo passeio,
por exemplo, entre tantos possíveis, conferir as belas paisagens da região
numa época diferente do ano, mesmo com o risco de só encontrar neve no
cume das montanhas.
O sucesso de Bariloche, também se deve a vistas muito
bonitas, e que o centro comercial se resume a poucas quadras em torno de
suas construções mais antigas, erguidas a partir de 1902, na verdade se
estende e, às vezes, se esconde, por um bom pedaço à volta do imenso
lago Nahuel Huapi. Cercado de montanhas por todos os lados, o lago é
um colosso de 557 quilômetros quadrados de superfície, o suficiente para
deixar debaixo d'água um terço de toda a área do município de São Paulo.
Basta percorrer alguns dos 80 quilômetros que ligam bariloche a sua
vizinha mais próxima, villa Angostura, para se ter idéia de como a
combinação dos lagos andinos com a cordilheira pode ser tão bela e variada.
Não é de hoje que Bariloche provoca uma curiosa
reação nas pessoas que a visitam pela primeira vez: a vontade de
repetir a viagem, arriscamos a dizer que é porque não há apenas uma
Bariloche, mas várias. Há a estação de esqui, claro, com neve
abundante e pistas para todos os níveis em cerro catedral, e efervescente
cidade de 120 000 habitantes ao pé da montanha, repleta de pubs, danceterias,
shopping centers, ótimos restaurantes e hotéis charmosos, uma agitação
que não se vê em nenhuma outra estação de inverno da América do Sul.
Mas há em torno disso tudo, ainda, um parque nacional de cair o queixo,
onde seis lagos cristalinos compõem com os picos ao redor algumas das
paisagens mais lindas do mundo.
É muito fácil vir em busca de uma Bariloche e
acabar morrendo de amores por outra. Esquiadores que se rendem às
diversões noturnas da cidade, por exemplo, e são obrigados a desmarcar
a descida da montanha na manhã seguinte. Pessoas que chegam sem esqui,
e ficam loucos para aprender a esquiar, casais que descobrem pousadas
bem mais charmosas que os hotéis em que estão, e sonham em voltar,
desta vez sem as crianças, para uma nova lua-de-mel.
desbravadores que vão de carro alugado até villa angostura e se perguntam
se não é o caso de ficar nesta adorável cidadezinha na próxima viagem.
Se você nunca ouviu falar de Villa Angostura, eis
aí mais uma face de Bariloche - aquela de quarenta ou cinqüenta anos
atrás. para fazer essa viagem no tempo, é preciso rodar 80
quilômetros em volta do lago Nahuel Huapi, que banha as duas cidades.
Sem a agitação da vizinha mais conhecida, Villa Angostura é um
endereço sob medida para casais apaixonados.
Quem vem a Bariloche, encontra uma cidade já tomada pela
neve, que começa a cair forte em meados de junho, e com uma vista do alto do
cerro campanario, tão deslumbrante que foi eleita pela revista national
geographic como uma das dez mais belas do mundo.
Mas a lista de clássicos imperdíveis da cidade é
grande. o Rincón Patagónico continua fazendo o melhor cordeiro assado
destas latitudes, assim como o boliche de Alberto segue imbatível no
bife de chorizo. Encravado numa gruta de pedra, o inusitado restaurante
La Cueva, com jantares à luz de velas e acesso apenas por motos de
neve, não foi superado por nenhum outro refúgio de cerro Catedral.
Tem os pubs Pilgrim e Wilkenny ainda disputam o título de o
melhor balcão para se tomar uma cerveja encorpada à noite (de dia, a
cervejaria artesanal Blest é a favorita). a Mamuschka se mantém como a
chocolateria mais sedutora ao nível do Nahuel Huapi, enquanto o café
do cerro campanario e a confeitaria do cerro otto dividem as preferências
de quem quer degustar um chocolate quente nas alturas, com um belo visual
à sua frente - no Otto, a vista um tantinho menos espetacular é compensada
com a possibilidade de mudar o ângulo de visão a cada gole, a bordo do
salão giratório da casa.
Os passeios de barco - indispensáveis para se ter
uma idéia da imensidão deste parque nacional no meio da patagônia -
seguem tão deliciosos como antes, com três roteiros principais: um
para a ilha Victoria e o bosque de Arrayanes, que consome metade do dia;
outro para Puerto Blest e lago Frías, que ocupa o dia todo; e a
travessia até Puerto Montt, no chile, num percurso que alterna a
navegação por vários lagos com pequenos trechos de ônibus, ao cabo
de dois ou mais dias.
É bom lembrar, ainda, que a diversão e a aventura
na neve vão bem além do esqui e do snowboard (a prancha única que
permite manobras mais radicais na descida da montanha e ganha cada vez
mais adeptos). Há caminhadas leves, feitas com botas especiais com uma
hora de duração, até trilhas mais desafiadoras, sobre raquetes de
neve, que podem durar cinco horas. A dica para que os iniciantes ganhem
confiança mais rapidamente é o esqui nórdico, que desliza num
traçado predeterminado sobre canaletas. para os mais ousados e
experientes, o programa mais cheio de adrenalina é sem dúvida o
heliski, que vem a ser a descida em pistas virgens e não sinalizadas de
montanhas sem meios de acesso convencionais - chega-se a elas de
helicóptero. já o programa mais democrático, é simplesmente fazer um belo
boneco de neve e tirar foto ao lado dele. Nem precisa pegar um teleférico
para isso.
Mesmo quando não está coberta de neve, bariloche
tem muita diversão a oferecer, foi, aliás, como refúgio de verão que a
cidade fundada há 104 anos começou a construir sua fama de paraíso natural
no meio da Patagônia. O esqui só passou a ser praticado pelos visitantes nos
anos 1950, com a instalação dos primeiros meios de elevação em cerro
catedral. Até então era um esporte compartilhado apenas pelos bravos
associados do club alpino de bariloche, criado em 1931.
A partir de outubro, quando as encostas tingidas de
branco ganham cores mais vivas, o esqui e as caminhadas na neve são
substituídos por uma infinidade de passeios e esportes mais adequados
às temperaturas amenas. Do rafting às trilhas de mountain biking, das
cavalgadas ao mergulho nos lagos, há muito o que fazer em bariloche
depois do inverno, e com preços ainda mais atraentes do que da alta temporada.
Muitos turistas americanos e europeus, mais familiarizados
com a neve, referem vir a Bariloche no período de setembro a abril para
pescar truta nos lagos da região (no resto do ano, a pesca só é
liberada no lago moreno).
Outra atividade que atrai muitos estrangeiros para
Bariloche é a caça, permitida em fazendas delimitadas para algumas
espécies que não fazem parte da fauna Patagônica. A lebre européia,
que se reproduz muito rápido e é uma ameaça constante ao equilíbrio
da cadeia alimentar no parque nacional, é um dos alvos principais dos
caçadores. Mas nenhuma presa é mais desejada do que o cervo colorado,
que disputa as pastagens naturais com o Huemul, um cervo local de menor
porte. Não é à toa que há tanto artesanato de chifre de cervo em
Bariloche, e tantos pratos de caça no cardápio dos restaurantes
locais.
Bariloche, enfim, é uma estação de esqui que fica
nos limites de uma cidade cheia de vida, que é apenas um pontinho no
mapa da maior e mais bonita reserva ecológica da argentina. com 7 650
quilômetros quadrados, o parque nacional Nahuel Huapi é cinco vezes
maior que o município de São Paulo, e é tão profundo que mergulhadores
profissionais chegaram a descer 500 metros sem tocar o fundo,que guarda mistérios.
Até hoje há quem passe adiante a lenda de que um plesiossauro vivo teria
sido avistado em suas águas. Hoje parece piada, mas em 1922 a notícia
eletrizou o país inteiro, e até uma expedição chegou a ser organizada
para caçar o monstro. Não deu em nada, claro, e o plesiossauro acabou
virando fantasia de bloco no carnaval seguinte. Bariloche, definitivamente,
não precisa dessas lendas para ser o que é.